terça-feira, janeiro 20, 2009
Secretário-geral da ONU deve pôr ponto final no ataque contra Gaza
Enquanto não havia expectativas de cessar-fogo, Israel lançava seus devastadores ataques contra Gaza porque não havia. Agora que essas expectativas existem, torna a fazê-lo porque existem. Com essa insistência no recurso desproporcional à força, Israel não está garantindo uma vitória militar contra o Hamas, assegurada antes de ocorrer o primeiro disparo, mas está aumentando em troca de nada o custo político que pagará por essas três semanas de morte e destruição. Além disso, pesará sobre sua consciência o inútil sacrifício de várias dezenas a mais de vidas inocentes. Porque o balanço total de vítimas já supera o milhar, mais da metade civis.
Desde a madrugada de quinta-feira, apenas algumas horas antes de receber o secretário-geral da ONU, o exército israelense atacou a sede da Agência para Refugiados Palestinos do organismo (UNRWA), um edifício que abriga os meios de comunicação e um hospital da Meia-Lua Vermelha, além de outros 70 alvos qualificados como parte da infraestrutura do Hamas. O ministro da Defesa Ehud Barak qualificou de "grave erro" a primeira dessas ações, embora o primeiro-ministro Olmert tenha recorrido pouco depois ao pretexto reiterado de um ataque prévio por parte dos milicianos palestinos.
Depois da matança em uma escola da UNRWA e das contradições do Executivo israelense, essas explicações não avalizadas com provas de qualquer espécie carecem de credibilidade, além de que não constituiriam uma desculpa para disparar contra civis. E essa falta de credibilidade se projeta agora sobre o ataque contra as instalações dos meios de comunicação e o hospital da Meia-Lua Vermelha, cujos responsáveis negaram qualquer presença de homens armados. Como também se projeta sobre os ataques contra grande número de edifícios oficiais que não são infraestruturas do Hamas, mas do governo de Gaza, seja o que for.
Na medida em que se aproxima o previsível final do ataque, fica mais patente a desproporção com que Israel se conduziu em Gaza. O governo de Olmert não realizou um ato de legítima defesa, mas uma ação de represália e um castigo coletivo que nada pode justificar. A presença do secretário-geral da ONU na região não deve ser só a ocasião para que o governo Olmert apresente desculpas pelos ataques contra as instalações e o pessoal da UNRWA, como o ponto final definitivo em uma ofensiva que provocou consternação entre os amigos de Israel e espanto em todo o mundo.
Assediado por escândalos de corrupção, Olmert deixará o poder depois das eleições de 10 de fevereiro próximo. Sairá com o triste recorde de ter sido o único primeiro-ministro que lançou duas guerras em seu mandato. Com a primeira, levou Israel ao fracasso. Com a segunda, ao descrédito internacional. E se há algo que põe Israel em risco são colheitas políticas como esta.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
domingo, janeiro 18, 2009
“Israel está criando homens-bomba”
A convocação chegou por telefone, às 11h de um sábado. O celular de Yitzchak Ben Mocha mostrou “número não identificado”, mas ele sabia. Uma voz gravada ordenava que se apresentasse à sua unidade do exército às 8h da manhã seguinte. Pôs o uniforme na mala, pensando que, dali, iria diretamente para a cadeia. Reservista israelense, 25 anos, Yitzchak saiu de casa apenas para informar a quem o recebesse que não aceitaria lutar naquela guerra, nem, em nenhum caso, participaria de qualquer ação relacionada à guerra de Gaza.
Apresentou-se e o mandaram montar barracas para os soldados em combate.
“Disse ao oficial ‘Não. Não vou fazer isso.’ Na manhã seguinte, mandaram-me de volta para casa. Disseram que me reconvocariam, se fosse necessário. Até agora, não convocaram. Antes, todos os ‘refuseniks’ passavam meses na cadeia. Depois soltavam, depois voltavam a prender, e era isso, meses a fio. Agora, mandam pra casa. Acho que o exército está dispensando quem se recusa a combater para não ter de admitir que há muitos ‘refuseniks’. Seria prejudicial à imagem de que os israelenses e o exército estão unidos nessa guerra.”
O exército tem informado que há tanto apoio à guerra de Gaza, que apresentaram- se mais soldados para lutar o que a imprensa local caracteriza como uma “guerra justa” do que o necessário, e que muitos reservistas apresentaram- se e foram dispensados, para serem reconvocados se necessário. Ben Mocha diz que isso só serve para encobrir o número cada vez maior de homens e mulheres em idade de servir o exército que se recusam a combater contra Gaza.
Uma organização de apoio aos que se recusam a combater, “Courage to Refuse”, publicou manifesto em vários jornais, condenando a matança de centenas de civis palestinos e conclamando os convocados a recusar-se a combater em Gaza. “A violência brutal, sem precedentes, contra Gaza é chocante. É falsa a esperança de que tanta brutalidade trará alguma segurança aos israelenses, e é esperança perigosa. Não podemos nos manter passivos, quando centenas de civis são assassinados na carnificina promovida pelo exército de Israel” - dizia o manifesto.
É difícil saber com segurança quantos recusaram-se a combater em Gaza, porque o exército os dispensa silenciosamente. Até hoje, só um reservista foi preso por recursar-se a combater em Gaza. No’em Levna, primeiro-tenente do exército israelense, foi posto em prisão militar por 14 dias. “Não há o que justifique matar civis inocentes”, disse ele. “Nada justifica essa carnificina. É a arrogância dos israelenses, como se fosse lógica. É como se dissessem ’se os chacinarmos, ficará tudo bem’. Mas o ódio, a ira que estamos plantando em Gaza recairá sobre nós mesmos.”
Ben Mocha não é militante pacifista nem é anti-Israel. Cresceu em família de judeus ortodoxos, frequentou escola religiosa e prestou serviço militar pleno numa unidade de paraquedistas de combate, considerada da elite do exército israelense.
Disse que se alistou pensando em combater “organizações terroristas”. De repente, “estava matando palestinos que lutavam por independência e autodeterminação, ou espancando agricultores em protesto contra o roubo de suas terras.” Também viu abusos, como soldados israelenses que mandavam mulheres e crianças entrar em casas abandonadas, para “verificar” se não estariam minadas. “Isso é usar escudos humanos” - disse.
“Não sou pacifista. Reconheço que é importante para Israel ter um exército eficiente de defesa, mas não quero mais participar de uma operação de ocupação que já tem 40 anos. Comuniquei ao exército que me apresentarei para treinamento, de modo que sempre estarei preparado para defender Israel. Mas atacar Gaza e perpetuar a ocupação não é defender Israel.”
Esse não é um ponto de vista popular em um país onde o culto ao exército começa na escola e muitos líderes políticos são ex-generais. Mas é provável que a guerra fortaleça aqueles que lhe resistem na medida em que os israelenses puderem refletir sobre a escala da matança.
Em 2003 o exército mandou Yoni Ben Artzi para a prisão por 18 meses, por ter declarado “objeção de consciência”. Artzi, sobrinho de Binyamin Netanyahu, o ex-primeiro- ministro favorito para voltar ao poder nas próximas eleições gerais, foi chamado perante um “comitê de consciência”, formado apenas de oficiais militares. Eles decidiram que ele não era um pacifista – já que sua forte resistência ao exército era uma evidência das qualidades de um soldado!
Ele passou mais tempo na prisão do que qualquer outro “refusenik”, mas recentemente o exército optou por fingir que os dissidentes não existem – ao mesmo tempo em que centenas de soldados e reservistas assinaram petições se recusando a apoiar a ocupação.
O governo ficou particularmente embaraçado quando 27 pilotos disseram que não iriam mais levar adiante a matança de palestinos em Gaza, e quando um grupo de elite se recusou a servir nos territórios ocupados.
Ainda assim, posturas como essas permanecem uma exceção. “Alguns dos meus companheiros de exército não gostam do que estou dizendo. Alguns dizem que não concordam, mas respeitam meu direito de dizê-lo. Agora, com a guerra, eles dizem que estou dando um mau nome à minha unidade no exército”, diz Ben Mocha.
Ele sente-se muito perturbado pelo fato de a maioria dos israelenses e praticamente todos os jornais não estarem vendo que centenas de palestinos foram destroçados pelo poder destrutivo de Israel. “No longo prazo, não é guerra de defesa. Estamos criando mil homens-bomba, que nos atacarão: são os filhos, os irmãos dos que matamos em Gaza. No longo prazo, Israel só gerou mais terror. Não se pode separar a guerra de Gaza do fato de que a Palestina está sob ocupação há mais de 40 anos. Não estou justificando os foguetes do Hamas, mas os israelenses deveriam preocupar-se mais, hoje, com o que nós estamos fazendo.”
* tradução: Caia Fittipaldi e Daniel Lopes.
http://www.amalgama .blog.br/ 01/2009/israel- esta-criando- homens-bomba/
"Tempo dos virtuosos", por Gideon Levy, no Haaretz
Essa guerra, talvez mais que as anteriores, está expondo as veias profundas da sociedade de Israel. Racismo e ódio erguem a cabeça, a sede de vingança e de sangue. A “tendência do comando” no exército de Israel hoje é matar, “matar o mais possível”, nas palavras dos porta-vozes militares na televisão. E ainda que falassem dos combatentes do Hamas, ainda assim essa disposição seria sempre horrenda.
A fúria sem rédeas, a brutalidade é chamada de “exercitar a cautela”: o apavorante balanço do sangue derramado – 100 palestinos mortos para cada israelense morto é um fato que não está levantando qualquer discussão, como se Israel tivesse decidido que o sangue dos palestinos valesse 100 vezes menos que o sangue dos israelenses, o que manifesta o inerente racismo da sociedade de Israel.
Direitistas, nacionalistas, chauvinistas e militaristas são o bom-tom da hora. Ninguém fale de humanidade e compaixão. Só na periferia ouvem-se vozes de protesto - desautorizadas, descartadas, em ostracismo e ignoradas pela imprensa -, vozes de um pequeno e bravo grupo de judeus e árabes.
Além disso tudo, soa também outra voz, a pior de todas. A voz dos cínicos e dos hipócritas. Meu colega Ari Shavit parece ser o seu mais eloquente porta-voz. Essa semana, Shavit escreveu neste jornal (”Israel deve dobrar, triplicar, quadruplicar a assistência médica em Gaza” - Haaretz, 7/1): “A ofensiva israelense em Gaza é justa (…). Só uma iniciativa imediata e generosa de socorro humanitário provará que, apesar da guerra brutal que nos foi imposta, nos lembramos de que há seres humanos do outro lado.”
Para Shavit, que defendeu a justeza dessa guerra e insistiu que Israel não poderia deixar-se derrotar, o custo moral não conta, como não conta o fato de que não há vitória possível em guerras injustas como essa. E, na mesma frase, atreve-se a falar dos “seres humanos do outro lado”.
Shavit pretende que Israel mate e mate e, depois, construa hospitais de campanha e mande remédios para os feridos? Ele sabe que uma guerra contra civis desarmados, talvez os seres mais desamparados do mundo, que não têm para onde fugir, é e sempre será vergonhosa. Mas essa gente sempre quer aparecer bem. Israel bombardeará prédios residenciais e depois tratará os feridos e mutilados em Ichilov; Israel meterá uns poucos refugiados nas escolas da ONU e depois tratará os aleijados em Beit Lewinstein. Israel assassinará e depois chorará no funeral. Israel cortará ao meio mulheres e crianças, como máquina automática de matar e, ao mesmo tempo, falará de dignidade.
O problema é que nada disso jamais dará certo. Tudo isso é hipocrisia ultrajante, vergonhoso cinismo. Os que convocam em tom inflamado para mais e mais violência, sem considerar as consequências, são, de fato, os que mais se auto-enganam e os que mais traem Israel.
Não se pode ser bom e mau ao mesmo tempo. A única “pureza” de que cogitam é “matar terroristas para purificar Israel”, o que significa, apenas, semear tragédias cada vez maiores. O que está sendo feito em Gaza não é desastre natural, terremoto, inundação, calamidades em que Israel teria o dever e o direito de estender a mão aos flagelados, mandar equipes de resgate, como tanto gostamos de fazer. Toda a desgraça, todo o horror que há hoje em Gaza foi feito por mãos humanas - as mãos de Israel. Quem tem mãos sujas de sangue não pode oferecer ajuda. Nenhuma compaixão nasce da brutalidade.
Pois ainda há quem pretenda enganar todos todo o tempo. Matar e destruir indiscriminadamente e, ao mesmo tempo, fazer-se de bom, de justo, de homem de consciência limpa. Prosseguir na prática de crimes de guerra, sem a culpa que os acompanha sempre. É preciso ter sangue frio.
Quem justifica essa guerra justifica todos os crimes. Quem prega mais guerra e crê que haja justiça em assassinatos em massa perde o direito de falar de moralidade e humanidade. Não existe qualquer possibilidade de, ao mesmo tempo, assassinar e reabilitar aleijados. Esse tipo de atitude é a perfeita representação das duas caras de Israel, sempre alertas: praticar qualquer crime, mas, ao mesmo tempo, auto-absolver- se, sentir-se imaculado aos próprios olhos. Matar, demolir, espalhar fome e sangue, aprisionar, humilhar… e sentir-se bom, sentir-se justo (sem falar em não se sentir cínico). Dessa vez, os senhores da guerra não conseguirão dar-se esses luxos.
Quem justifica essa guerra justifica todos os crimes. Quem diz que se trata de guerra de defesa, prepare-se para suportar toda a responsabilidade moral pelas consequências do que faz e diz. Quem empurra os políticos e os militares para ainda mais guerra, saiba que carregará a marca de Cain estampada na testa, para sempre. Os que apóiam essa guerra, apóiam o horror.
* tradução: Caia Fittipaldi
http://www.amalgama .blog.br/ 01/2009/tempo- dos-virtuosos/
sexta-feira, janeiro 16, 2009
Bombardeios em Gaza matam três jogadores da seleção palestina
da Lancepress
O conflitos na Faixa de Gaza causaram a morte de três jogadores da seleção palestina apenas nesta semana. A região tem sofrido com constantes ataques israelenses desde dezembro do ano passado.
Ayman Alkurd, do Al-Ryadi de Falasteen, e Shadi Sbakhe, do Khadamat Alniserat, morreram após terem suas casas bombardeadas. Já Wajeh Moshtahe, apontado como uma das maiores revelações do futebol palestino, foi vítima de uma bomba quando caminhava pela rua.
O estádio Rafah de Gaza também foi alvo dos ataques. O local, que era a casa da seleção palestina até outubro do ano passado, foi completamente destruído.
Diretor de agência da ONU denuncia uso de bombas de fósforo em Gaza
"Não há combates nos arredores do complexo. Foram obuses de artilharia e bombas de fósforo que alcançaram a zona do armazém e das oficinas", declarou Ging à CNN. "É preciso abrir uma investigação a respeito".
"Agora estamos diante de um incêndio causado por bombas de fósforo, que é muito difícil de apagar porque usar água será tóxico", explicou.
Segundo ele, existem 700 pessoas no local, muitos feridos que precisam ser evacuados. "A situação é muito séria. O problema e que também temos um enorme depósito de combustível".
"O complexo é a plataforma de todas as operações humanitárias em Gaza, os alimentos, o combustível, está tudo armazenado aqui", enfatizou.
Por causa do ataque desta quinta-feira, a UNRWA anunciou a suspensão das atividades em Gaza.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moom, se disse ultrajado com o bombardeio israelense contra a principal agência da ONU de ajuda aos palestinos em Gaza.
"Fiz saber que protesto firmemente e que estou escandalizado. Já pedi uma explicação detalhada ao ministro da Defesa e ao ministro das Relações Exteriores", declarou Ban à imprensa em Tel Aviv.
Na véspera, a ONG Human Rights Watch voltou a pedir a Israel que não use armas contendo fósforo branco, ou substâncias químicas tóxicas similares, nas zonas povoadas da Faixa de Gaza.
O fósforo branco "é um componente químico que incendeia os edifícios e queima as pessoas", alertou o diretor da HRW, Kenneth Roth, em entrevista coletiva em Washington.
"Isso não deve ser utilizado nas zonas povoadas", acrescentou.
A exposição a esse agente tóxico pode ser fatal. Sua utilização não está proibida por qualquer tratado internacional, mas o Protocolo III da Convenção de 1980 sobre as Armas Convencionais proíbe seu uso contra populações civis, ou contra forças militares instaladas entre as populações civis.
Explosões atingem órgãos de imprensa em Gaza
Jornalistas da Reuters que trabalhavam na sucursal naquele momento disseram que um míssil ou foguete de Israel aparentemente atingiu o lado sul do 13o andar da Torre Al Shurouq, no centro da Cidade de Gaza.
A Reuters retirou seus funcionários do prédio, mas uma câmera que transmite imagens ao vivo de Gaza desde o início da guerra continuou funcionando. Imagens de TV de um outro local mostraram fumaça saindo dos andares superiores do prédio de 16 andares.
A TV de Abu Dhabi, onde o jornalista ficou ferido, funciona no 14o andar. No 13o há uma produtora de TV local. A sucursal da Reuters é no 12o andar.
Um porta-voz militar israelense conversara com funcionários da Reuters em Jerusalém pouco antes da explosão, para confirmar a localização da sucursal da agência em Gaza.
A Reuters havia fornecido ao Exército as coordenadas geográficas da sua sucursal no início da guerra, e em várias ocasiões recebeu garantias de que o local não seria alvejado.
Depois da explosão, uma porta-voz militar disse estar se informando sobre o incidente. Ela declarou que as tropas israelenses trocavam tiros com o Hamas na cidade e que alguns guerrilheiros teriam ocupado um edifício da imprensa naquele bairro na noite de quarta-feira.
Jornalistas da Reuters disseram não estar cientes da presença de militantes armados no prédio antes do ataque.
Durante a invasão norte-americana em Bagdá, em abril de 2003, um cinegrafista da Reuters foi morto e três colegas ficaram feridos pelo disparo de um tanque dos EUA contra a sucursal da agência no hotel Palestine. Um cinegrafista espanhol também morreu naquele incidente.
Remédios do Brasil estavam em prédio da ONU bombardeado em Gaza
Segundo o chanceler, neste local estavam estocados os remédios enviados pelo Brasil à Faixa de Gaza. Amorim afirmou, no entanto, não saber se a ajuda humanitária havia sido destruída.
"É necessário que, como em outros casos, seja feita uma investigação em detalhes de por quê aconteceu esse ataque nesse lugar", disse Amorim a jornalistas, destacando que os depósitos tinham fins exclusivamente humanitários.
Para o ministro, falta vontade política para que seja fechado um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
O chanceler brasileiro conclamou a comunidade internacional para que aumente a pressão pelo respeito à resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que pede o fim do conflito, que já matou mais de mil palestinos na Faixa de Gaza. Amorim voltou a defender a ampliação do grupo de países que faz a intermediação das conversas de paz na região.
"Os elementos para a paz estão dados. O que falta é vontade política de concretizar a paz", enfatizou Amorim, lembrando que a resolução da ONU determina o cessar-fogo, a retirada das tropas israelenses da Faixa de Gaza e a abertura da fronteira entre Israel e o território palestino.
"Se não houver esse cumprimento, estaríamos sendo jogados para uma lei da selva nas relações internacionais, o que não interessa a ninguém", acrescentou, destacando que os palestinos são o lado mais fraco do conflito.
Amorim, que acabou de voltar de um giro pelo Oriente Médio para conversar sobre a paz na região, lembrou que o Brasil defende a existência de Israel e também a criação de um Estado palestino.
"Têm que ser dois Estados viáveis. A Palestina não pode ser totalmente dividida e totalmente impossibilitada de existir como um Estado economicamente viável", destacou o ministro.
Para Amorim, Israel tem que existir com segurança, o que não ocorrerá se a questão só for vista do ponto de vista militar. "Não achamos que há futuro para Israel com o país se transformando em uma espécie de bunker cercado por países por todos os lados que tenham sentimentos variados", complementou.
Em sua viagem ao Oriente Médio, Amorim também reforçou o discurso de que o diálogo entre judeus e palestinos tem que ser intermediado por mais países. "Talvez essas discussões de paz necessitem de um ar novo, um ar fresco", disse, lembrando que, além do Brasil, Espanha e Turquia tentam participar de forma mais efetiva nesse caso.
O ministro também afirmou que todos os países da região devem trabalhar pela paz e assegurou que defenderá esse ponto de vista com as autoridades iranianas quando encontrá-las no futuro.quinta-feira, janeiro 15, 2009
Gaza: uma guerra popular em Israel
A guerra é popular, segundo as pesquisas, e globalmente apoiada pela imprensa israelense - um respaldo que se explica por vários elementos: a relação de força é claramente favorável a Israel, além de visar um inimigo jurado, o Hamas, que controla a Faixa de Gaza.
E esta aprovação é dada apesar das imagens de crianças mortas em Gaza e do temor de que uma ofensiva terrestre custe a vida de numerosos soldados judeus.
No total, a operação "chumbo grosso" é apoiada por 95% da população israelense, 80% sem nenhuma reserva, diz uma pesquisa publicada pelo jornal Maariv, a semanas das eleições antecipadas de Israel previstas para 10 de fevereiro; 44% das pessoas ouvidas têm, agora, "opinião mais positiva" em relação ao Ministro da Defesa e líder do Partido Trabalhista, Ehud Barak.
Quarta-feira, 71% das pessoas ouvidas se declararam a favor do prosseguimento da ofensiva aérea, segundo o jornal Haaretz levando em conta a opinião da minoria árabe (20% da população) hostil à operação.
Nesse contexto, o Partido Trabalhista (centro-esquerda), que estava em queda livre nas pesquisas antes da ofensiva, conseguiria atualmente eleger 16 dos 120 deputados da futura Knesset (parlamento israelense) contra os 12 atribuídos pelas sondagens anteriores. Na atual legislatura, conta com 19 representantes.
O Likud, principal formação da oposição de direita em Israel dirigida pelo ex-chefe de governo Benjamin Netanyahu, está igualado com o partido Kadima (centrista) da ministra das Relações Exteriores Tzipi Livni, com 28 vagas, segundo as intenções de voto para as legislativas de 10 de fevereiro.
O bombardeio da casa de um líder do Hamas, Nizar Rayan, assassinado na quinta-feira junto com suas quatro esposas e onze dos doze filhos, foi saudado pelo jornal de grande tiragem Yediot Aharonot como um "grande feito".
O jornal Maariv revela por sua vez que esta operação, que não poderia senão fazer vítimas inocentes, havia recebido o aval prévio do procurador-geral do Estado, Menahem Mazuz, para proteger os responsáveis de eventuais processos por "crimes de guerra".
O jornal Haaretz (liberal) concede, também ele, um "satisfecit" às forças armadas pela condução da ofensiva, contrastando com as medíocres performances durante a guerra do Líbano no verão de 2006.
As únicas críticas provêem da esquerda minoritária, de uma extrema esquerda marginalizada e por partidos representantes da minora árabe.
O partido Meretz que havia conclamado uma ofensiva em Gaza para fazer parar os lançamentos de foguetes pede, agora, que a operação cesse, o mesmo acontecendo com o movimento antianexionista "A Paz Agora" e vários escritores de renome.
Opositores protestam nesta sexta-feira diante do ministério da Defesa em Tel Aviv e preparam manifestação para a noite de sábado, acusando os dirigentes judeus de "crimes de guerra".
Leia também: "Reservista israelense é preso por não combater em Gaza"
Olmert diz que falou com Bush para forçar EUA a mudar voto na ONU
Carregando forte na bravata política num discurso feito na noite de segunda-feira, Olmert disse que exigiu falar com Bush na quinta-feira passada, faltando apenas dez minutos para uma votação no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre uma resolução pedindo um cessar-fogo imediato. Israel era contrário à resolução.
"Quando vimos que a secretária de Estado, por razões que não compreendíamos realmente, queria votar a favor da resolução da ONU ... eu procurei o presidente Bush, e me disseram que ele estava na Filadélfia, fazendo um discurso", disse Olmert.
"Falei 'não me importa. Preciso falar com ele agora mesmo'", afirmou Olmert, referindo-se a Bush, que deixará a presidência dos EUA em 20 de janeiro, como "amigo ímpar" de Israel.
"Tiraram Bush do pódio, levaram-no para outra sala, e eu conversei com ele. Eu disse a ele: 'Vocês não podem votar a favor desta resolução'. Ele falou: 'Escute, eu não estou sabendo sobre isso, não vi a resolução, não estou familiarizado com o texto dela.'"
Olmert afirmou que então falou a Bush: "Eu estou familiarizado. Você não pode votar a favor."
"Ele deu uma ordem à secretária de Estado, e ela não votou a favor - uma resolução que ela mesma arquitetou, redigiu, organizou e pela qual manobrou. Ela ficou bastante envergonhada e se absteve de votar numa resolução que ela mesma tinha organizado", disse Olmert.
Quatorze dos 15 membros do Conselho de Segurança foram a favor da resolução, que não conseguiu interromper a ofensiva de Israel na Faixa de Gaza nem o disparo de foguetes pelo Hamas contra território israelense.
Olmert, que está sendo investigado pela polícia por alegada corrupção, renunciou ao cargo de primeiro-ministro em setembro, mas continua a exercê-lo interinamente até que seja formado um novo governo, o que acontecerá após a eleição parlamentar de 10 de fevereiro em Israel.
Leia também: "Grécia barra saída de armas dos EUA que iam para Israel" e "Portugal fecha espaço aéreo a aviões com armas para Israel"
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Príncipe Harry se desculpa por se referir a soldado com termo racista
Depois que veio a público a existência do vídeo, divulgado hoje pelo tablódie "News of the World", o príncipe se viu obrigado a pedir desculpas em público por suas palvras ofensivas.
Em nota, o palácio de Clarence House afirmou que Harry tem "muita consciência do quão ofensivo o termo pode ser" e que "sente muitíssimo" por ter ofendido alguém.
No entanto, o palácio observa que o incidente em questão, no qual o príncipe chamou de "Paqui" um colega de origem paquistanesa enquanto filmava um vídeo, aconteceu há três anos, quando estava se formando na academia militar Sandhurst.
A Clarence House afirmou disse ainda que o apelido foi proferido em sentido amistoso e "sem malícia".
"Paqui" é um termo pejorativo no Reino Unido usado para descrever, normalmente com conotações xenófobas, pessoas de aparência árabe ou muçulmana.
O vídeo obtido pelo "News of the World" foi filmado pelo próprio Harry, como um diário pessoal, durante um período de instrução no Chipre, em 2006.
O príncipe começa filmando no aeroporto, enquanto os soldados esperam seu vôo para a ilha.
Ao passar com a câmera por onde está sentado no chão seu colega asiático, identificado como Ahmed Raza Khan, atual capitão do Exército paquistanês, o príncipe sussurra: "Ah, (aqui está) nosso amiguinho 'paqui', Ahmed".
Em outro momento do vídeo, Harry filma um companheiro que cobriu a cabeça com um pano. "Não f..., você está parecendo um 'raghead'", fala o príncipe, usando um termo pejorativo que geralmente designa árabes ou muçulmanos que cobrem a cabeça com um lenço.
A Clarence House esclareceu que, nessa segunda gafe, o filho mais novo de Charles e Diana utilizou a palavra "raghead" (cabeça de lenço, em tradução livre), aparentemente comum nos Exércitos britânico e americano, em referência "aos talibãs ou insurgentes iraquianos".
Os dois incidentes geraram críticas e pedidos de uma investigação por parte da Comissão britânica de Igualdade e Direitos Humanos.
O Ministério da Defesa disse que examinará os fatos e ressaltou que "este tipo de linguagem não é aceitável em um Exército moderno".